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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O Idoso e a morte

A velhice está acompanhada pela certeza da morte. Alguns tentam minimizar esta verdade, dizendo que velhice é apenas mais uma fase da vida, como adolescência. Mas não é verdade. Esta é a única fase da vida que vem acompanhada desta certeza: a morte. Embora a morte não seja exclusividade dos idosos, para as pessoas em outras fases de vida ela não é certa, é acidental, é “anormal”. Para o velho não. Ele vê a morte se aproximando, e convive com ela à medida que perde amigos e entes queridos.
Levando isso em consideração, o idoso de certa forma deve ser tratado como um paciente terminal. Deve ser preparado para o morrer, encarando este fim com serenidade. Para que isto ocorra, é necessário que este idoso encontre um sentido na morte, que só pode ser obtido encontrando-se um sentido na vida.
Este estudo visa, então, traçar paralelos entre as idéias de Viktor Frankl, que buscou compreender o sentido da vida, Elisabeth Kubler Ross, que estudou o fenômeno da morte e John Donne, que relata sua experiência quando esteve muito perto da morte. Buscaremos entender a morte na perspectiva do idoso e avaliar o potencial que os legados destes estudiosos têm para melhorar a visão que o idoso tem da morte.

VIKTOR FRANKL
Viktor E.  Frankl era um médico, professor de Psiquiatria e Neurologia e foi fundador da Logoterapia, a chamada “terceira escola vienense de psicoterapia”, que baseia-se na busca da pessoa pelo sentido da vida. Lecionou em várias universidades, publicou 32 livros, e participou de inúmeras conferências. No livro “Em busca de sentido”, este autor descreve como sentiu e observou a si mesmo e as demais pessoas e seu comportamento limite no campo de extermínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Ele chegou à conclusão de que se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. Frankl acreditava que uma pessoa não é o resultado de múltiplos determinantes e condicionamentos, que sempre existe um resquício de atitude livre do eu em frente ao meio ambiente, e que a liberdade espiritual do ser humano permite-lhe, até o último suspiro, configurar sua vida de modo que tenha sentido. Citando Nietzsche, Frankl reforça: “Quem tem por que viver agüenta quase todo como”.
Para Frankl, nenhum indivíduo pode ser substituído ou representado por outro, e esse fato ilumina a responsabilidade do ser humano por sua vida e pela continuidade da vida. Além disso, a transitoriedade da nossa existência não lhe tira o sentido. Tudo depende de nos conscientizarmos das possibilidades essencialmente transitórias. Para o autor, todo ser humano tem a liberdade de mudar a qualquer instante...pode mudar o mundo para melhor, se possível, e mudar a si mesmo para melhor, se necessário. Aquilo que cada indivíduo se torna é ele que faz de si mesmo, ou seja, depende de decisões e não de condições.

ELISABETH KUBLER-ROSS
Elisabeth Kubler-Ross, nascida da Suíça em 1926, foi a médica psiquiatra que mudou a maneira como o mundo pensava sobre a morte. Foi pioneira nos estudos sobre a Morte e o Morrer, trabalhando com pacientes terminais, mas, principalmente, “ouvindo” os sentimentos e percepções das pessoas com diagnósticos reservados. Em seu livro “Sobre a Morte e o Morrer”, descreve as entrevistas que realizou com pacientes terminais, que foram subsídios para que ela desenvolvesse a idéia dos “estágios” que se sucedem após a notícia de uma doença fatal.
Kubler-Ross escreve que “quanto mais avançamos na ciência, mais parece que tememos e negamos a realidade da morte”. Ela critica a ciência despersonalizada, que prolonga a vida, mas não diminui o sofrimento, e conclui que a morte se torna um ato solitário e impessoal nas salas de emergência, quando deveria ocorrer no ambiente familiar, com a participação de todos.
Além disto, a médica alerta para a necessidade de se criar o hábito de pensar na morte antes que se tenha a confrontação com ela. Deveríamos considerar a morte como uma possibilidade real, não só para os outros, como para nós mesmos.

JOHN DONNE
John Donne foi um teólogo e filósofo, pregador da catedral de Saint Paul, em Londres, que morreu em 1631. É considerado um poeta metafísico, porque usava analogias e metáforas atípicas sobre experiências comuns em seus poemas. Foi um autor que demonstrou grande interesse pela tema da Morte. Isso fica claro na quantidade de sua obra voltada para este tema. Trinta e dois dos seus cinqüenta e quatro sonetos e canções são sobre a morte, e todas as suas vinte e três Meditações são reflexões sobre sua experiência com a doença que gravemente ameaçou a sua vida no ano de 1623. Donne acreditava que estava com a Peste, durante a grande Peste Negra, que matou 70.000 pessoas na Inglaterra do século XVI. Foi durante ainda o curso da doença que ele escreveu as meditações, que descrevem a confusão, fraqueza e solidão causadas pela enfermidade, e o terror precipitado pela possibilidade real da Morte.
Além da experiência pessoal, Donne conviveu ainda com a morte de muitas pessoas próximas. Seu irmão, Henry, morreu devido à Peste em 1593, ele perdeu cinco dos doze filhos ao nascimento, além da mulher, que morreu durante um parto.

A obra de Donne é profunda na análise deste tema. A doença e a morte são temas pessoais para ele, e seus sentimentos com relação a elas são palpáveis em seus poemas. O poeta entende que sua morte é inevitável, e se debate com argumentos contraditórios, demonstrando a complexidade deste assunto.

Para Donne, na experiência da Morte aprendemos sobre Humanidade. Estamos compartilhando o destino de todos, e nesta conexão com os outros, podemos ver a graça de Deus traduzindo nossas vidas num propósito eterno. O autor demonstra, assim, que é a sua fé, sua religiosidade, que dão sentido para a morte. Na sua Meditação XVII ele discorre sobre como o fim da vida não é o fim do valor da nossa humanidade, e que na mortalidade compartilhada, devemos experimentar a compaixão com o próximo.

PARALELO ENTRE OS AUTORES
A morte expõe os limites da condição humana, e não costuma ser algo visto como espontâneo ou natural. Freud, citado por Concentino, fala sobre “o penoso enigma da morte, contra o qual remédio algum foi encontrado e provavelmente nunca será”. Mas, apesar de inevitável, muitos homens vivem como se nunca fossem morrer. A velhice é, portanto, o momento apropriado para se encarar esta “vilã”. Mucida, citado por Cocentino, diz que “o prelúdio da morte anunciada poderá igualar-se à velhice”. Fortes-Burgo (2009) demonstrou que situações relacionadas a perdas, especialmente aquelas que remetam à finitude, estão fortemente presentes na vida dos idosos. Os idosos avaliam os eventos ligados à finitude como grau elevado de sobrecarga.

Isto é, portanto, um fato: O idoso lida inevitavelmente com a morte. Mas em que os três autores descritos neste artigo podem ajudar na visão que os idosos têm da morte? Todos eles concordam em uma coisa: a maneira como uma pessoa encara a Morte depende muito da maneira como ela encarou sua Vida. John Donne, em seus famosos discursos funerários, dizia que o nosso dia crítico não é o dia da nossa morte, mas todo o curso da nossa vida. Ele traduzia deliberadamente uma Vida Santa em uma Morte Santa.
Elisabeth Kubler-Ross, em sua análise dos pacientes terminais, observou a necessidade que esses pacientes tinham de se sentir úteis, de deixar algo atrás de si, criando, assim, uma ilusão de imortalidade. Ela concluiu que era mais fácil a aceitação com tranqüilidade da morte para aquelas pessoas que sentiam haver realizado algo em suas vidas.

Estas duas visões estão em perfeita sintonia com a teoria de Viktor Frankl, que descreve a necessidade inerente ao ser humano de um sentido para a vida, que pode ser um relacionamento importante ou um legado de trabalho, por exemplo. Para este autor, “a liberdade espiritual do ser humano permite-lhe, até o último suspiro, configurar sua vida de modo que tenha sentido”. Sobre a velhice, especificamente, Frankl enfatiza que em vez de possibilidades, a pessoa tem realidades no passado, que podem ser um amor vivido ou um trabalho realizado, ou até mesmo um sofrimento enfrentado com dignidade e coragem. Ele afirma:
Cada um dos instantes de que a vida é feita está morrendo, e aquele instante nunca mais voltará. Mas porventura não é essa transitoriedade algo que nos estimula e desafia a fazer o melhor uso possível de cada momento de nossas vidas?”

A velhice tem que ser mais que apenas uma espera da morte. Ela pode ser vivida com sentido, e a morte pode ser encarada com tranqüilidade quando se acredita estar deixando algo para trás. Nesse aspecto de se viver uma boa velhice, alguns estudos trazem importantes subsídios.
Willians, em artigo sobre a importância do lazer, defende que o lazer seria uma das ferramentas para se encontrar o sentido da vida. Baseando-se nas teorias de Frankl, ele sustenta que só no lazer genuíno abre-se o portão para a liberdade, e o indivíduo se “encontra”.

Outros estudos têm comprovado a importância de relacionamentos significativos. A família traz sentido para a vida dos idosos, e pode ajuda-los a encarar a morte com mais serenidade. Trentini (2005) pesquisou as mais significantes situações adversas na visão dos idosos, e concluiu que são a morte e a separação dos familiares. Gomes (2013) estudou a relação entre a mortalidade e estado marital em idosos, e concluiu que a taxa de mortalidade dos solteiros é 61% mais alta que a dos casados, e que a separação/divórcio e a viuvez elevam a chance de morte das mulheres. Estes estudos corroboram a teoria da importância dos relacionamentos.

Mas além de lazer e relacionamentos, podemos adicionar, baseados nos três autores, a importância do “legado”. A morte é bem-vinda quando a pessoa acredita ter concluído de maneira satisfatória a vida. Toledo (2013) discorre sobre o suicídio de Walmor Chagas, concluindo que ele viveu uma vida completa, e “decidiu” que já era chegada a hora da morte.

“Walmor Chagas não quis ser surpreendido pela morte. Aos 82 anos, cometeu suicídio, em sua própria casa. Estava sentado, o que proclama que encarou a morte em seus próprios termos, no lugar e na posição que bem entendeu. Decidiu que, em vez de esperar a morte atacar, tomaria a iniciativa. Teria se antecipado ao aprofundamento dos estragos causados pelo envelhecimento e morbidades. Mas, sobretudo, teria concluído que o estoque de vida que lhe coubera, a vida em seus múltiplos aspectos, se esgotara. A peça já tinha acabado. E ele próprio determinou isso, ao tomar nas mãos a autoria do desfecho.”

Na Velhice a presença da morte é algo que está perto, e pode ser causadora de grande stress. Porém, analisando os argumentos defendidos neste artigo, percebemos que não precisa ser assim. De acordo com Donne, Kubler-Ross e Frankl, nos vemos diante da possibilidade de uma velhice vivida com sentido, que leva a uma morte serena e com significado. Analisando profundamente a morte, Donne chega à conclusão de que ela não é poderosa, terrível e apavorante, mas gentil e confortável. Kubler-Ross observa que nós mesmos tecemos a trama da nossa história humana e podemos criar e viver uma biografia única. E Viktor Frankl conclui que a vida permanece potencialmente significativa sob quaisquer circunstâncias, e cada um de nós deve fazer o melhor que puder para melhorar o mundo.

Concluímos, então, que depende de cada idoso encarar sua Velhice de maneira positiva, tentando dar sentido e significado à vida, e assim se preparando para uma morte tranqüila e serena.

Fonte:http://gerontotecnologias.blogspot.com.br/2013/06/o-idoso-e-morte-aila-davis-fanstonepina.html

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