Mas não é apenas a vida um pouco mais longeva que tem feito o cenário da população de idosos mudar. Os anos a mais de vida têm sido, em boa parte, sem doença e debilidade. Os idosos trabalham, mantêm a agenda ocupada, estão mais atentos à saúde. O mesmo IBGE divulgou, em novembro passado, um estudo que mostra que 27% dos idosos brasileiros — pessoas com 60 anos ou mais — estão no mercado de trabalho. O próximo número é apenas uma consequência de todos os outros aqui expostos: existem no Brasil 2.816.470 idosos morando sozinhos. No Distrito Federal, são 26.426 cuidando da própria vida e pouco dispostos a abrir mão da liberdade e da independência em nome de uma vida “mais segura” — mas também, muitas vezes, menos confortável — ao lado de familiares ou em instituições de longas permanência, os antigos asilos.
“As gerações que hoje têm entre 60 e 75 anos desfrutam de condições de vida muito melhores: os sistemas de pensões e de saúde, o acesso à educação, à tecnologia de informação e de comunicação e a melhoria da infraestrutura urbana e rural permitem que os cidadãos, quando envelhecem, possam empreender novos projetos de vida, cuidar-se, desfrutar dos bens sociais e culturais e aprender coisas novas”, analisa Mayte Sancho, diretora científica da Fundación Matía, uma instituição espanhola sem fins lucrativos dedicada a cuidar de idosos e a produzir conhecimento a fim de melhorar sua qualidade de vida.
Ela lembra, no entanto, que, normalmente, o momento em que as famílias passam a pressionar o idoso para que ele saia da própria casa e passe a morar com um parente, um cuidador ou em uma instituição é justamente aquele em que julgam que o idoso já não consegue mais cuidar de si — esteja esse julgamento certo ou não. “Atualmente, o número de idosos morando sozinhos aumenta sem parar. O que é, a princípio, um indicador de competência para esse grupo da população cada vez mais longevo, mas também autônomo, capaz e independente”, observa a cientista. “Mas, quando a solidão se une à dependência, tudo muda. Aparece a fragilidade e, claro, as famílias passam a buscar soluções mais seguras e confortáveis para seus velhos”, diz.
A convivência com os filhos hoje, no entanto, não é mais como em tempos passados. As mulheres, cuidadoras natas, estão inseridas no mercado de trabalho e já não têm mais tanta disponibilidade para dar a atenção necessária ao familiar. Além disso, lembra Mayte, as casas são menores e, muitas vezes, hostis a uma pessoa que precisa de cuidados. “E o mais importante: o idoso perde suas referências e seu espaço de poder e decisão, que é a sua casa. Por isso, pelo menos na Espanha, cada vez menos pessoas aceitam ir morar com os filhos quando perdem sua independência”, conclui a especialista.
Ter o poder de decidir o que fazer quando esses tempos chegarem, no entanto, está mesmo nas mãos dos jovens. Planejar uma velhice saudável e segura enquanto ainda é tempo, dizem médicos e estudiosos, ainda é a melhor forma de não se ver obrigado a aceitar decisões tomadas pelos outros no futuro.
Fonte: Saúde Plena

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